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XULIO FORMOSO, MEU PARCEIRO MUSICAL
24-12-2004
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Xulio Formoso (Vigo, 14 de julho de 1949 – Madrid, 6 de novembro de 2018) foi um músico venezuelano-espanhol. Membro fundador do grupo Rajatabla em 1971, Formoso também foi compositor, artista visual e músico. Formou-se em engenharia civil pela Universidade Santa María e em engenharia de sistemas pela UTSA em San Antonio, Texas. Em 2009, foi presidente do Centro Nacional de Registros (CENDIS). Até sua morte, dedicou-se à ilustração, contribuindo com seu trabalho para veículos de comunicação e plataformas online, além de expor na Galícia, sua região natal.
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A situação de Xulio Formoso parece ser a dos intelectuais venezuelanos que fazem oposição ao governo do presidente Hugo Chávez: perplexidade, desalento e temor.
Há mais de 4 anos que a Venezuela vive uma terrível crise política — para não falar dos anos em que a democracia e a economia do país entraram em colapso.
A população venezuelana está dividida, conflagrada e atemorizada. A oposição sendo esmagada pela “milícias revolucionárias” do ditador constitucional. As manifestações de rua em favor de um plebiscito para destituir o mandato de Chavez, que reformou a constituição para eternizar-se no poder.
Enormes e violentas passeatas, reprimidas pela polícia e pelas organizações chavistas, com imagens de truculências e atrocidades percorrem a mídia do mundo.
As manifestações foram consideradas ilegais, antipatrióticas, sob leis marciais proclamadas pelo governo militarista. Como boa parte dos venezuelanos são cidadãos naturalizados, grande parte deles constituindo a classe média, criaram-se leis para extraditá-los, para expulsá-los do serviço público, para impedir seus negócios. As greves foram reprimidas a cassetetes e bombas, seguidas de demissões sumárias. Mais de 30 mil operários da empresa estatal de petróleo estiveram parados muito tempo e depois jogados na rua, ao desemprego, desalojados de suas casas, sem direito a indenizações e muitos dos líderes continuam presos. Centenas e centenas de presos políticos no país que era o paladino das liberdades democráticas quando, nos anos [época em que eu, Antonio Miranda, vivia, estudava e trabalhava no país, além das atividades culturais...] quando nos anos 60, 70 e 80, a América Latina vivia afundada de ditaduras sanguinárias e assassinas.
Xulio Formoso vem sendo perseguido por ter denunciado esta situação em entrevistas a jornais locais e da Espanha. Como aconteceu com o nosso amigo Napoleón Bravo — conseguiram tirar do ar seu combativo programa de TV —que se defende de mandados de prisão e ameaças de extradição.
Xulio viu suas oportunidades de trabalho reduzidas, recebe ameaças de morte pelo telefone (que está grampeado), falam de sequestrar as filhas, sofre humilhações de todo tipo. Seu amigo e parceiro de músicas (e conterrâneo da Galiza) Farruco Sesto é o atual ministro da Cultura.
O amigo de infância nem o recebe.
Xulio, a esposa Carmen (desempregada) e duas filhas estão refugiados num apartamento de Colinas de Bello Monte, quase sem móveis, com caixas pelo chão, e sobrevive com a prestação de serviços como engenheiro de sistemas numa empresa privada estrangeira.
Assim foi com encontrei meu parceiro musical de Tu país está feliz: triste e infeliz.
Fui à Venezuela justamente para vê-lo, para conversar sobre uma proposta que ele me fez, por e-mail, de voltarmos a trabalhar juntos. Agora no projeto Terra brasílis que ele leu pela Internet. 33 anos depois de nosso último trabalho no espetáculo “Jesucristo astronauta” (em 1972), voltamos a compor a parceria. Ouvi, emocionado, a música que fez para o meu poema “Grande Sertão Veredas”, para cantor e coro.
[Xulio, recentemente, compôs a cantata com um texto de Pablo Neruda, que foi apresentado no grandioso Teatro Teresa Carreño, comemorativo dos 100 anos do poeta chileno, com orquestra e coro de cem vozes, sem o crédito de sua autoria, apesar de ter recebido do governo o pagamento por sua criação.]
Fiz-lhe uma contraproposta: produzir músicas para dois espetáculos meus — para Terra Brasilis, projeto mais demorado, de maior fôlego — e um outro imediato, com os textos de meus livros “Perversos” e “Retratos & Poesia Reunida”. Começamos a trabalhar, com o maior entusiasmo, como os jovens idealistas (que éramos) nos tempos de Tu país está feliz. Saiu primeiro um fado a partir do Soneto V do Bestiário (de Perversos). Uma joia inspiradíssima que vai continuar lapidando.Começamos também um segundo trabalho... que intuímos estar no tom certo, na melodia adequada para os propósitos e para as intenções do texto.
Os meus poemas versilibristas, com poucas rimas, sem métrica, oferecem mais dificuldades para as composições e vão exigir ajustes nos textos.
Almoçamos juntos, numa pizzaria, fizemos uma revisão de nossas histórias de vida, discutimos sobre o estado das coisas na Venezuela — a esposa Carmen está confinada em casa e revoltada —e ficamos de ver-nos depois... Ele iria continuar, sozinho, o trabalho. Nas maiores crises é que surgem as melhores soluções... Certamente que estamos no início de um novo e próspero filão criativo.
Seguimos da casa dele, a pé, em direção de Sabana Grande, e aproveitamos para conhecer o Shopping El Recreo e para fazermos umas compras no imenso camelódromo das redondezas.
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